EUTANÁSIA ASSISTIDA

Artigo Publicado na Tribuna de Petrópolis em 12 de fevereiro de 2026.
Nasceu em Petrópolis onde cresceu e passou boa parte da vida. Quando ainda bem jovem era alegre e espevitada.
Brincava e brigava constantemente com sua irmã mais nova. Cresceu, se tornou adulta e mudou de cidade. Foi morar na região dos lagos perto do mar.
Não teve filhos, mas ajudou a cuidar de pelo menos seis jovenzinhos. Viveu a maior parte da vida muito tranquila e feliz.
Na velhice desenvolveu um câncer mamário. Inicialmente parecia ser inocente, mas aos poucos foi se desenvolvendo.
Foi ao especialista que fez uma biópsia e confirmou o diagnóstico da doença maligna.
O tratamento foi logo iniciado. Uma cirurgia para ressecção de todo o tumor, das glândulas mamárias e esvaziamento de toda a cadeia ganglionar da região.
Ela ficou muito debilitada depois da cirurgia, mas a sua sorte é que foi muito bem cuidada em casa.
Logo em seguida, começaram sessões de quimioterapia com muito sofrimento para ela e para todos ao seu redor.
A debilidade, provocada pelos efeitos colaterais do tratamento, somada à idade já avançada, fez com que se tornasse cada vez mais fraca e dependente de cuidados de terceiros.
Foi forte e resiliente e conseguiu superar a etapa da quimioterapia. Viveu ainda alguns anos.
A doença, entretanto, parece que só havia dado uma pequena trégua para ela. Voltou com força total.
Uma ferida no local da cirurgia foi aberta espontaneamente e começou a crescer e se aprofundar com drenagem de secreção constante e ininterrupta.
Idas e vindas à clínica se tornaram constantes. Chegou ao ponto que nada mais podia ser feito.
Foi aí que foi pensada a "Eutanásia Ativa" em que o médico pratica um ato (como injeção de substância) para causar a morte.
Chegou o derradeiro dia da sua vida. Não fazia mais sentido viver em tamanho sofrimento. Uma ferida cada vez maior, uma dor incontrolável pelos mais potentes analgésicos e até mesmo anestésicos. Não conseguia mais comer nem beber, pois não era mais possível deglutir. Tinha muita dificuldade para respirar. Seus olhos já nem mesmo expressavam sofrimento. A única expressão percebida era a de uma apatia, um distanciamento e, o mais doloroso para quem assistia, a expressão da fragilidade da vida. A expressão daquela inocência que antecede o fim e que se revela quando não resta mais nada a fazer nesta vida, a não ser esperar a morte.
Foram então para clínica para a realização da Eutanásia. O médico que iria realizar o procedimento os recepcionou. Um último carinho e beijo de despedida. Estava acordada e devidamente acompanhada pelas duas pessoas que mais a amavam e que assistiram tudo até o fim. Até a consumação total da morte.
O nome dela era Milk. Uma gatinha que deixará muitas saudades.
Adeus Milk!
Á Deus: Milk.
Os bichos nos ensinam a sermos mais honestos com nossos sentimentos diante do sofrimento e da morte.
Que ouçam os que têm ouvidos para ouvir.
P.S.: O médico era um Médico Veterinário. A clínica era uma Clínica Veterinária.
